Resumo
O presente ensaio realiza uma análise crítica e teórico-reflexiva do aforisma “Uma mentira contada muitas vezes passa a ser verdade. Uma mentira que já nasce como verdade, nunca foi mentira.”, tomando-o como sintoma e operador de processos sociais de produção de crenças, validações e evidências. O objetivo central consiste em compreender como a repetição, longe de ser apenas um mecanismo psicológico de persuasão, articula-se a estruturas de legitimidade que instituem o que pode ser reconhecido como verdadeiro, plausível e “natural”. Para tanto, contrapomos e colocamos em diálogo os construtos fundamentais de Pierre Bourdieu, campo, habitus, doxa, violência simbólica e capital simbólico, e de Michel Foucault, discurso, regime de verdade, poder-saber, arqueologia e genealogia. A linha de argumentação sustenta que a primeira frase do aforisma descreve um processo de sedimentação do crível: a mentira, repetida, converte-se em “evidência social” ao ser incorporada como disposição prática (habitus) e reconhecida como sentido comum (doxa) em campos específicos, onde agentes e instituições disputam capital simbólico. Já a segunda frase desloca a análise para um nível anterior ao juízo moral de “mentir”: mostra que certas proposições emergem já como verdade, porque são produzidas por dispositivos discursivos e institucionais que definem antecipadamente os critérios do verdadeiro e os modos de verificação, operando como regimes de verdade. Conclui-se que, em sociedades midiatizadas e plataformizadas, a repetição intensifica-se, mas não explica sozinha a eficácia do falso: o decisivo é a economia política e simbólica dos enunciados, isto é, quem fala, de onde fala, com que credenciais, sob quais técnicas de validação e com quais efeitos de governo.
Como citar
MORAIS, Ecléa Pérsigo; SILVA, Atila Barros da. QUANDO A REPETIÇÃO FABRICA O REAL E A “VERDADE” JÁ NASCE GOVERNADA. Revista Mover - Ciências e Humanidades. Vol.1 No.1 2026.
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