Resumo
Este artigo apresenta o Sistema T.E.C.A. — Tecnologia da Escuta —, protocolo metodológico de pesquisação territorial desenvolvido ao longo de 30 anos de intervenção direta no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro, e sistematizado academicamente no estágio de Pós-Doutoramento (CNPq/IPPUR/UFRJ). O T.E.C.A. nasce da convergência entre duas trajetórias metodológicas distintas: a CAOSGRAFIA — modos de construção coletiva de discursos, utiliza a cartografia como trama de afectos, focando na experiência e na narrativa da cidade desenvolvida coletivamente no Grupo de Pesquisa Modernidade e Cultura (GPMC/IPPUR/UFRJ), publicada no Caderno Metrópoles (2016) — e a escuta territorial acumulada em décadas de intervenção direta em territórios de alta complexidade urbana. O sistema organiza-se em quatro linhas metodológicas simultâneas e interdependentes: Territorial, Epistemologia, Caosgráfica e Audiovisual. O argumento central é que territórios complexos já produzem inovação — e que o Estado e o mercado sistematicamente falham por não saber e/ou não querer escutá-los. O caso do teleférico do Complexo do Alemão — mais de R$ 470 milhões em recursos públicos declarados consumidos ao longo de quinze anos, equipamento paralisado desde 2016 — é apresentado como estudo de caso âncora que documenta o custo concreto da ausência de escuta territorial qualificada. O artigo argumenta, ainda, que o protocolo T.E.C.A. não se restringe aos territórios urbanos periféricos: sua lógica de escuta aplica-se a qualquer contexto em que agentes externos chegam com soluções prontas antes de compreender a lógica interna do território — favelas, territórios rurais fronteiriços, comunidades tradicionais e indígenas.
Como citar
MOURA, Ricardo José. SISTEMA T.E.C.A. — TECNOLOGIA DA ESCUTA: PROTOCOLO METODOLÓGICO DE PESQUISAÇÃO EM TERRITÓRIOS DE ALTA COMPLEXIDADE. Revista Mover - Ciências e Humanidades. Vol.1 No.2 2026.
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