Resumo

Este artigo propõe olhar para a pedagogia da autodescoberta para além de uma ideia ingênua de desenvolvimento individual, entendendo-a como um campo atravessado por tensões: entre emancipação e reprodução das desigualdades. A autodescoberta, aqui, não é um percurso solitário ou neutro, mas um processo histórico e relacional, no qual o sujeito se constrói em diálogo constante com o mundo, com os outros e com as condições concretas de sua existência. Ao mobilizar autores como Rousseau, Montessori, Dewey e Rogers, o texto reconhece a importância da experiência, da liberdade e da construção de sentido na formação, mas problematiza o fato de que esses processos não se dão em condições iguais para todos. Nesse percurso, a pedagogia de Paulo Freire ocupa um lugar central ao compreender a autodescoberta como um movimento de conscientização crítica, que articula leitura do mundo e possibilidade de transformação social. No entanto, essa potência encontra limites quando observada à luz de Bourdieu, que evidencia como a escola, longe de ser neutra, participa da reprodução das desigualdades por meio da violência simbólica e da distribuição desigual de capital cultural. Foucault, por sua vez, tensiona ainda mais essa discussão ao revelar os dispositivos de poder que atravessam a constituição dos sujeitos, enquanto Bauman e Harvey ajudam a compreender como, na contemporaneidade, a ideia de autonomia pode ser capturada e ressignificada pelas lógicas neoliberais. Diante disso, o artigo sustenta que a autodescoberta só preserva seu caráter emancipador quando vinculada a uma crítica consistente das condições sociais e à construção coletiva de sentidos. Mais do que um exercício individual, ela se afirma como prática ética e política, capaz de tensionar estruturas e abrir possibilidades de transformação. De tal modo, educar não é apenas favorecer o “descobrir-se”, mas criar condições para que esse processo seja, de fato, crítico, situado e compartilhado.

Como citar

SILVA, Atila Barros. PEDAGOGIA DA AUTODESCOBERTA E TENSÕES ENTRE EMANCIPAÇÃO E REPRODUÇÃO SOCIAL. Revista Mover - Ciências e Humanidades. Vol.1 No.2 2026.

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