Resumo

A rodoviária não é só lugar de partida, é um entre. Um chão onde ninguém permanece, mas todos deixam algo de si. Ali, o tempo não corre: suspende. Entre o guichê e a plataforma, a vida se organiza em filas e anúncios, mas escapa nos gestos, no abraço que demora um segundo a mais, no olhar que insiste antes do embarque. Há uma coreografia silenciosa entre controle e afeto: o painel chama, o corpo hesita; o ônibus chega, o coração atrasa. Nesse espaço de passagens, cada despedida é única, mesmo que os horários se repitam. No interior, sobretudo, partir não é escolha leve, é travessia necessária, marcada pelas distâncias que o mundo impõe. E, ainda assim, algo resiste à lógica do fluxo: uma memória que não se registra, um resto de saudade que não embarca. A rodoviária, com sua rotina de partidas, guarda o extraordinário de cada adeus, aquilo que não volta, mas também não se apaga.

Como citar

SILVA, Atila Barros. RODOVIÁRIA, LUGAR E IR, SÓ DE IR, UM ESPAÇO DE PASSAGEM, DISPOSITIVO DE PODER E POÉTICA DA DESPEDIDA. Revista Mover - Ciências e Humanidades. Vol.1 No.2 2026.

Referências

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